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Quando o objeto guarda o gesto: arte e trabalhos manuais

  • essencialdecorhome
  • há 8 horas
  • 4 min de leitura

Mãos trabalhando com tecidos, linhas e crochê sobre uma mesa de madeira.
Uma imagem possível para os gestos que permanecem na memória.

Há objetos que chegam às nossas mãos já prontos. Outros parecem guardar, mesmo depois de muitos anos, os gestos de quem os fez.

Uma linha que atravessa o tecido, pontos que se repetem até formar um desenho, pequenos retalhos reunidos um a um, uma barra de crochê acrescentada cuidadosamente a um pano de prato. Antes mesmo de compreendermos as técnicas ou o tempo necessário para produzi-los, aprendemos a conviver com essas coisas dentro de casa.

Na minha infância, elas estavam por toda parte.

Na casa da minha avó paterna, lembro-me das toalhas e colchas de crochê e dos panos de prato pintados, muitos deles finalizados com barras também feitas à mão. Na casa da minha avó materna, eram as colchas de retalhos e os trabalhos de fuxico que ocupavam esse lugar. E havia também os retalhos que sobravam.


Fuxicos de tecidos estampados feitos à mão junto a linha e agulha.
De retalho em retalho, as mãos transformam tecido em memória.

Alguns deles vinham parar nas minhas mãos. Minha avó os separava para mim e, com aqueles pequenos pedaços de tecido, eu fazia roupas para as minhas bonecas. Não sei se naquela época eu percebia que, de algum modo, estava participando daquele mesmo universo de criação. Talvez, ao me entregar os retalhos, ela tenha encontrado uma forma de me agradar, de alimentar minhas brincadeiras e, ao mesmo tempo, de abrir espaço para que eu também criasse.


Quando aprendemos a reconhecer o fazer?


Colcha artesanal de retalhos coloridos sobre uma cama em ambiente rústico e simples.
Tempo condensado em retalhos, pontos e gestos.

Talvez aprender uma técnica comece muito antes de conhecermos seus pontos, nomes ou regras. Começa pela convivência: vendo mãos fazerem, observando materiais se transformarem e descobrindo que aquilo que existe pode ganhar outras formas.

Mais tarde, aprendi crochê, ponto cruz e macramê. Mas, olhando para trás, percebo que meu interesse pelo fazer manual talvez tenha começado antes — entre linhas, tecidos, colchas, fuxicos e aqueles retalhos que podiam virar roupas de boneca.

Antes de aprender a fazer com as mãos, talvez eu já tivesse aprendido a imaginar com elas.

Há algo de especial nessa passagem. Nem sempre aquilo que recebemos de quem veio antes permanece da mesma maneira. Um gesto pode continuar sem ser repetido. Uma técnica pode se transformar, encontrar outros materiais, outras referências e até outras finalidades.

Minha avó fazia colchas e, dos tecidos que passavam por suas mãos, alguns chegavam às minhas para ganhar outras formas. Anos depois, minhas mãos aprenderiam outros pontos e outros fazeres. Talvez seja assim que certos conhecimentos atravessam gerações, na convivência, na observação, na curiosidade e nas pequenas oportunidades de experimentar.


Arte e trabalhos manuais sobre a cama, a mesa e o pano de prato


Hoje, ao olhar para essas lembranças, outra pergunta me ocorre: quando aprendemos a reconhecer algo como arte?

As colchas de crochê estavam sobre as camas. As toalhas, sobre as mesas. Os panos de prato pintados e contornados por barras de crochê faziam parte da cozinha. Os retalhos se transformavam em colchas, fuxicos e, nas mãos de uma criança, em roupas de boneca. Tudo isso estava tão integrado à vida cotidiana que talvez nem fosse necessário nomeá-lo.


Pano de prato pintado à mão com flores e acabamento em crochê.
Arte e cuidado presentes também nas coisas de todos os dias.

Durante muito tempo, bordar, costurar, fazer crochê, fuxico e tantos outros trabalhos realizados principalmente no espaço doméstico foram compreendidos como prendas ou saberes próprios do cotidiano, nem sempre reconhecidos na relação entre arte e trabalhos manuais.

Há escolha de cores, combinação de materiais, composição, desenho, ritmo, repetição, domínio da técnica e também invenção. Há decisões sendo tomadas a cada etapa. E há algo que nenhuma peça produzida em série consegue reproduzir exatamente: o gesto de quem fez.


Por que aprendemos a olhar algumas formas de criação como arte enquanto outras permaneceram durante tanto tempo sobre nossas camas, mesas e paredes sem que nos perguntássemos sobre o valor estético, criativo e cultural que carregavam?


O tempo que existe dentro das coisas


Relógio antigo e óculos ao lado de linhas, crochê e tecidos sobre uma mesa de madeira.
Um tempo tecido, ponto a ponto.

Há ainda outra dimensão nesses objetos que hoje me chama a atenção: o tempo.

Uma colcha não aparece pronta. Ela cresce aos poucos. Um ponto encontra o outro; um retalho precisa ser escolhido e unido ao seguinte; uma barra de crochê percorre lentamente a borda de um tecido.

Quando olhamos apenas para o objeto terminado, nem sempre percebemos as horas que existem dentro dele. Talvez por isso algumas dessas peças adquiram um valor que ultrapassa sua função. Elas não guardam apenas fios, tecidos, cores ou desenhos. Guardam escolhas, tentativas, pensamentos e uma parcela do tempo de alguém.

Um objeto feito à mão também é uma forma de tempo que podemos tocar.

Quem sabe por isso que, tantos anos depois, eu ainda me lembre das colchas, das toalhas, dos panos de prato, dos fuxicos e dos pequenos retalhos que chegavam às minhas mãos. Alguns daqueles objetos podem já não existir, mas os gestos que havia neles permaneceram de outras maneiras.

Às vezes, aquilo que as mãos fazem permanece muito depois que elas terminam de fazer.

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