As casas que habitam em nós
- essencialdecorhome
- há 2 dias
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Quando penso nas casas da minha infância, algumas imagens permanecem com uma nitidez curiosa. Não são necessariamente os grandes acontecimentos que primeiro me vêm à memória, mas os detalhes: a disposição dos móveis, os objetos sobre a mesa, as plantas ocupando os cantos da casa.
Na casa dos meus pais, uma casa simples, havia sempre muitas plantas. Meu pai era quem cuidava delas. Acordava cedo, organizava o quintal e depois seguia para o trabalho. De tempos em tempos, tirava de dentro de casa os caqueiros mais pesados para que as plantas tomassem sol e, depois, tornava a colocá-los para dentro.
Minha mãe costumava escolher onde alguns desses vasos ficariam, mas, às vezes, meu pai também decidia. Assim, as plantas circulavam entre o quintal e o interior e, quase sem percebermos, a casa também se transformava.
As primeiras referências
Na casa da minha avó paterna, onde também morei, as plantas estavam sempre presentes. Lembro-me especialmente delas sobre a “peça” e sobre a mesa. Eram parte da casa, assim como os móveis e os objetos que compunham aqueles ambientes.
Talvez tenha sido ali que comecei a construir, sem perceber, uma ideia que me acompanha até hoje: uma mesa parece pedir um adorno. E, se esse adorno for uma planta, aí sim, parece que a casa está completa.
Hoje percebo que essas escolhas aparentemente simples também nos ensinam a olhar para o lar. Muito antes de conhecermos palavras como decoração, composição ou estilo, já aprendemos, dentro das casas em que vivemos, o que nos transmite beleza, aconchego e pertencimento.
Decoração e memória afetiva: o que uma casa nos ensina: O que uma casa nos ensina
Por muito tempo, não pensei nessas lembranças como referências de decoração. Eram apenas cenas da infância: meu pai carregando os vasos, minha mãe escolhendo onde colocá-los, as plantas sobre os móveis na casa da minha avó, a mesa que parecia sempre precisar de um enfeite sobre ela.
Hoje percebo que havia ali uma espécie de aprendizado silencioso. Antes mesmo de saber o que era decoração, eu já aprendia que uma casa podia ser cuidada, transformada e organizada para expressar algo de quem vivia nela.
Talvez seja por isso que algumas escolhas que fazemos em nossas próprias casas pareçam tão naturais. Gostamos de determinadas cores, materiais, objetos ou maneiras de organizar os espaços sem saber exatamente de onde veio esse gosto. Mas, às vezes, basta olhar um pouco para trás para reconhecer suas primeiras referências.
As casas em que vivemos também moldam o nosso olhar.
Elas permanecem em nós nos pequenos gestos: no vaso que colocamos sobre a mesa, na planta que escolhemos para um canto, no objeto que guardamos porque nos lembra alguém. Decorar, então, pode ser também uma maneira de continuar contando a nossa própria história.
As casas que levamos conosco
Quando construímos nossos próprios espaços, talvez não comecemos de uma página em branco. Levamos conosco referências que fomos reunindo ao longo da vida: algumas descobertas mais tarde, na arte, nas viagens, nos livros, nas imagens e nos lugares que conhecemos; outras tão antigas que já não sabemos exatamente quando passaram a fazer parte de nós.
Às vezes, essas referências reaparecem em escolhas muito simples. Na preferência por determinado material, nas cores que nos atraem, nos objetos que escolhemos guardar ou na maneira particular de organizar a casa. Escolhemos porque gostamos, mas talvez haja também, nessas escolhas, um pouco daquilo que um dia aprendemos a reconhecer como lar.
Quando volto às casas da minha infância, percebo que as plantas são apenas uma parte do que ficou. Há também objetos, móveis, tecidos e trabalhos feitos à mão que ainda consigo recordar. Alguns deles me ensinaram outras formas de criar e merecem uma história própria, que contarei em outro post.
Talvez decorar seja também isso: reunir o que descobrimos pelo caminho sem perder completamente aquilo que nos trouxe até aqui.
A casa que construímos no presente talvez guarde um pouco de todas as casas que já nos habitaram.
E você? Quando pensa nas casas da sua infância, o que ainda permanece? Uma planta, um móvel, uma cor, um tecido, um objeto? Quanto dessas lembranças existe na casa que você constrói hoje?
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